sábado, 17 de fevereiro de 2018

GESSO

Livro ANTOLOGIA POÉTICA: Estrela da Manhã e outros poemas, de Manuel Bandeira, de 1978, p.51, editora Círculo do Livro. Edição integral, direitos de Helena Bandeira R. Cardoso, Maria H. C. Organização, estudos e notas: Emmanuel de Moraes.

Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
_ O gesso muito branco, as linhas muito puras -
Mal sugeria imagem de vida
(Embora a figura chorasse).

Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina
amarelo-suja.
Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na da minha humanidade irônica de tísico.

Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos,
recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo
mordente da pátina...

Hoje este gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.

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